Agraciado com o prêmio Nobel em 1995, o poeta irlandês Seamus Heaney possui uma vastíssima obra poética e crítica na qual apenas uma pequena parcela chegou ao público brasileiro. No ano de 2000, a Companhia das Letras lançou uma antologia das composições poéticas de Heaney sob o título de "Poemas" (tradução e introdução de José Antonio Arantes), cujas notas explicativas e apêndice são realmente esclarecedores e instigantes. A poesia de Heaney ao mesmo tempo que trabalha com lirisimo as paragens rurais do interior irlandês e com o cotidiano dos trabalhadores dessa área, também tematiza os grandes dramas humanos e religiosos da Irlanda do Norte. O resultado, como afirma o próprio José Antonio Arantes, "são poemas enxutos, ao mesmo tempo toscos e sofisticados, que aliam o registro miúdo do dia-a-dia a poderosas incursões pela história, pela política, pela natureza ou pela mitologia, sem perderem jamais a atmosfera de proximidade com o mistério que caracteriza toda a grande poesia". Abaixo, a tradução de Arantes do poema "The Spoonbait" do livro "Haw Lantern".
A Isca
Assim nova similitude nos é dada
E dizemos: a alma é comparável
A uma isca que uma criança descobre
Sob a tampa corrediça de um porta-lápis,
Vislumbrada uma vez e imaginada a vida toda
À tona e livre e enrolando-se de parte alguma -
Uma estrela cadente voltando às trevas.
Escapa dele e o queima sem prévio aviso
Como a gota simples que o Rico implorou
Precipitando-se num grande abismo.
A seguir sai, o elmo polido de herói
Exposto a meia-nau sobre as águas agitadas.
Sai, alternativamente, luz de brinquedo
Puxada através dele rio acima, a prender nada.
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