- "Noite na Taverna", de Álvares de Azevedo e "Srta. Bisturi", de Baudelaire – 16/06/2012
- "O homem da multidão", de Edgar A. Poe e "O jantar", de Clarice Lispector - 19/05/2012
- "Belfagor, o arquidiabo", de Machiavel - 21/04/2012
- "A morte em Veneza", de Thomas Mann - 17/03/2012
- "O velho e o mar", de Ernest Hemingway - 18/02/2012
- "Silogismos da amargura", de Emil Cioran - 21/01/2012
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Retrospectiva 2012
Com o encerramento das atividades do Palimpsestos - quanto grupo de leituras exclusivamente - em 2012, as últimas obras lidas em encontros, todos no primeiro semestre deste ano foram:
O grupo de leituras foi administrado em seu último ano de atividades por Aílton Augusto e Fabrício Moraes.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
"Belfagor, o Arquidiabo", de Nicolau Maquiavel
Belfagor, o Arquidiabo é o tipo de texto que o senso comum não atribuiria a Nicolau Maquiavel, conhecido quase que exclusivamente por seu O príncipe [de 1513], amado, odiado e comentado por políticos, administradores e demais pessoas que se enfrentam com o manejo do poder em alguma instância.
Não quer isto dizer que contos como o que foi escolhido pelo grupo para leitura agora em abril/2012 não tenham em alguma medida um matiz político, seja pela defesa da liberdade, seja pela crítica à corrupção dos costumes, com a evidente ostentação, por parte da nobreza, de posses que não existem de fato. Outro ponto a destacar é o modo pelo qual o conto demonstra, em certa medida, a visão da sociedade medieval sobre a mulher.
Apesar dessas considerações, acredito que é possível desfrutar da leitura deste conto sem maiores compromissos ideológicos, deixando-se levar pela prosa envolvente de Maquiavel, que nos conta as desventuras de Belfagor, um diabo que é mandado à terra para, como humano, verificar o que é o matrimônio.
O personagem recebeu essa missão um tanto quanto ingrata após constatarem, no Inferno, que a maioria dos habitantes dali eram homens que, em vida, foram casados. Assumindo a persona de Dom Rodrigo de Castela, o arquidiabo chega a Florença, onde desposa a jovem Honesta. Após o casamento, ela transforma sua vida em uma sucessão de tormentos. Para escapar à esposa e a alguns credores, Rodrigo conta com a ajuda do camponês Giovanni Matteo, a quem promete recompensas mas brinda armadilhas e confusões que se resolvem de modo jocoso ao final da história, que omito para não estragar a surpresa dos leitores.
sábado, 3 de março de 2012
"A Morte em Veneza", de Thomas Mann
Consoante à obra A Morte em Veneza, Thomas Mann decide fazer uma viagem à Itália com a esposa e o irmão, em março de 1911 e se instalam em Brioni, uma ilha na costa da Ístria. Todavia, o ambiente demasiado formal no hotel repleto de aristocratas não agrada aos viajantes e, assim, a 26 de Maio, decidem deslocar-se para o Lido perto de Veneza e se hospedam no Hôtel des Bains. E é aí que, de acordo com as palavras do próprio autor "uma série de circunstâncias curiosas e impressões aliadas à busca subsconsciente de algo novo que originasse uma ideia produtiva, conduziram ao desenvolvimento da história de A Morte em Veneza". A princípio, T. Mann imaginou uma história mais convencional e baseada no amor do velho Goethe pela jovem de 17 anos Ulrike von Levetzow, evoluindo depois para um enredo mais ousado, conforme os valores vigentes na época. Ao que consta, cada pormenor do livro traduziu fatos reais, desde os encontros no barco, até aos rumores da cólera. E o mais importante: Tadzio teve um modelo original, o conde Wladyslav Moes que, anos mais tarde confirmaria a exatidão com que Mann descrevera a sua mãe, irmãs e o amigo que regularmente o acompanhavam, recordando ainda que ambos estiveram conscientes de um homem que os observava atentamente. E foi Katia, a esposa de Mann, quem disse que o marido tinha se sentido bastante intrigado durante a estada em Veneza com um rapaz polaco de cerca de dez anos de idade. O modelo físico da outra personagem central da obra, Aschenbach, teria sido o compositor Gustav Mahler, de cuja morte haviam tomado conhecimento em Brioni e por quem Mann nutria sincera admiração.
Sobre a obra, duas questões cruciais se destacam: trata-se A Morte em Veneza de uma canção dionísiaca ou de uma fábula ética? E, em que plano é permitido pensar o amor de Aschenbach por Tadzio?
A primeira questão se relaciona com o fato de esta ser ou não uma obra neoclássica; o elemento apolíneo é detectável, no entanto, quando Aschenbach produz um ensaio na praia usando Tadzio como musa inspiradora, nota-se uma contradição, pois uma ocasião decadente dá origem a um manifesto neoclássico. Considerando-se ainda a permanente oscilação entre o apolíneo e o dionísiaco, pode-se reforçar a ideia de que o neoclassicismo da obra é apenas parcial. No que concerne à segunda questão, atentando num trecho do Fedro de Platão: "A paixão é a nossa sublimação e o nosso desejo será sempre o amor – é esta a nossa vontade e a nossa vergonha", conclui-se que o amor é visto como algo que se deseja mas que dificilmente se atinge e o artista não pode ser digno enquanto seguir o caminho errado, permanecendo um aventureiro dos sentimentos. Thomas Mann afirmou: "nós escritores não podemos ultrapassar o Eu, apenas o podemos desperdiçar em vergonha", ou seja, a vergonha de Aschenbach será a entrega incondicional aos sentidos e, consequentemente, ao não alcance da verdadeira essência do amor. O fim da obra coincide com a morte de Aschenbach que "segue o jovem até ao mistério prometedor", expressão enigmática de uma possível perfeição, ainda por vir...
A primeira questão se relaciona com o fato de esta ser ou não uma obra neoclássica; o elemento apolíneo é detectável, no entanto, quando Aschenbach produz um ensaio na praia usando Tadzio como musa inspiradora, nota-se uma contradição, pois uma ocasião decadente dá origem a um manifesto neoclássico. Considerando-se ainda a permanente oscilação entre o apolíneo e o dionísiaco, pode-se reforçar a ideia de que o neoclassicismo da obra é apenas parcial. No que concerne à segunda questão, atentando num trecho do Fedro de Platão: "A paixão é a nossa sublimação e o nosso desejo será sempre o amor – é esta a nossa vontade e a nossa vergonha", conclui-se que o amor é visto como algo que se deseja mas que dificilmente se atinge e o artista não pode ser digno enquanto seguir o caminho errado, permanecendo um aventureiro dos sentimentos. Thomas Mann afirmou: "nós escritores não podemos ultrapassar o Eu, apenas o podemos desperdiçar em vergonha", ou seja, a vergonha de Aschenbach será a entrega incondicional aos sentidos e, consequentemente, ao não alcance da verdadeira essência do amor. O fim da obra coincide com a morte de Aschenbach que "segue o jovem até ao mistério prometedor", expressão enigmática de uma possível perfeição, ainda por vir...
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sábado, 4 de fevereiro de 2012
"O velho e o mar", de Ernest Hemingway
O velho e o mar é uma obra da maturidade de Hemingway, na qual são retomados muitos temas já caros ao escritor. Publicada em 1952, causou tal frisson que rendeu ao seu autor o Pulitzer de 1953 e o Prêmio Nobel de 1954. Os membros da Academia Sueca, responsável pela entrega deste último, assim justificaram a escolha de Hemingway: "por sua maestria na arte de narrar, mais recentemente demonstrada em O velho e o mar, e pela influência que o autor exerceu no estilo contemporâneo".
No que se refere ao estilo, não podemos deixar de considerar a contribuição de Hemingway à depuração formal da prosa. Tendo exercido por muitos anos a profissão de jornalista, o escritor preferia as frases curtas e diretas, sem muitos complementos ou interpolações. Ao mesmo tempo, tentava potencializar a força das imagens que criava com tão poucas palavras.
Quanto aos temas caros ao escritor e que são retomados nesta novela, estão as grandes aventuras, a superação do ser humano frente à natureza e a defesa de valores morais como a coragem e a honra. Isso talvez fique mais claro quando expusermos um pequeno resumo da obra.
A novela conta a história de Santiago, um velho pescador que está enfrentando um período de má sorte que concretamente se traduz em mais de 80 dias sem pescar nenhum peixe. Este senhor passa a ser evitado pelos outros pescadores, que inclusive começam a duvidar da sua capacidade de ainda exercer a profissão. O único que ainda acredita em Santiago é um jovem que trabalhava com ele como aprendiz, mas que foi obrigado pela família a juntar-se à equipe de outro barco.
É então que Santiago empreende uma ousada viagem até alto-mar para conseguir pegar alguns peixes em sua rede e provar que ainda é capaz. É ali que, longe de todos, enfrenta um enorme desafio que põe à prova suas habilidades e sua força. O velho pescador topa com um marlim gigante, que só pôde ser capturado ao cabo de três dias de esforços, parca alimentação e vários ferimentos nas mãos.
Porém, Santiago tem de enfrentar outros desafios no caminho de volta à sua aldeia. Tubarões perseguem sua pequena embarcação para comer o peixe que ele havia pescado. As águas salgadas assistem a novo embate, no qual o pescador se vale de todas as ferramentas que possui ou consegue improvisar. Vencido, vê os tubarões levarem toda a carne do peixe, deixando apenas uma enorme carcaça atrelada ao barquinho.
Em todo caso, esta carcaça é suficiente para mostrar aos outros pescadores o tamanho da coragem de Santiago, que é encontrado desacordado na praia. Levado para casa pelo seu antigo auxiliar, o velho não chega a ver os comentários que fazem a respeito da sua façanha, grande ao ponto de colocá-lo novamente em posição de merecer o respeito de seus pares.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
"Silogismos da amargura", de Emil Cioran
Publicado originalmente em 1952, Silogismos da amargura é hoje um dos títulos mais traduzidos de Emil Cioran, ao contrário do que se poderia esperar diante da reação fria que suscitou inicialmente.
Trata-se de obra que se debruça sobre diversos temas: a linguagem., o tempo, o Ocidente, a religião e a história, entre outros. Apesar do título, não se pode dizer que Cioran tenha escrito silogismos "puros" ou categóricos, visto que falta a boa parte das frases enfeixadas no volume aquela precisão de raciocínio que se espera deste tipo de argumento lógico. Algumas dessas frases, por exemplo, chegam a flertar com a poesia: "Entediar-se é mascar tempo" ou "Todas as águas são cor de afogamento".
Para finalizar, vale destacar o que diz o próprio autor sobre a obra em carta enviada ao tradutor brasileiro [1]: "Estes Silogismos, publicados em 1952, passaram durante muito tempo despercebidos. Desde que apareceram em edição de bolso, seduziram os jovens. Só uma geração desiludida poderia se entusiasmar por uma visão tão negativa da história. Só da história? Da existência em geral. É preciso ter a coragem de reconhecer que a vida não resiste a uma interrogação séria e que é difícil, e mesmo impossível, atribuir um sentido ao que visivelmente não comporta um".
[1] CIORAN, E. Carta ao tradutor, In: CIORAN, E. Silogismos da amargura. Tradução de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011
sábado, 31 de dezembro de 2011
Retrospectiva 2011
Ao longo de 2011 o grupo seguiu com os encontros mensais para discussão das obras lidas. Embora o predomínio continue sendo de prosadores ocidentais, tivemos a oportunidade de velejar por outros mares, lendo autores russos e um indiano e um clássico romano. A lista completa das obras lidas está abaixo. Na medida do possível, incluí informações adicionais, como quem indicou a obra para leitura:
"Contos Exemplares", de Sophia de Mello Breyner Andresen - 15/01/2011, por indicação de Guadalupe Vieira
"Pais e Filhos", de Ivan Turgeniev - 19/02/2011, por indicação de Paulo Tostes
"A invenção de Morel", de Adolfo Bioy Casares - 19/03/2011, por indicação de Fabrício Tavares
Obra do Ano - 1° encontro: "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoiévski - 16/04/2011
Obra do ano - 2° encontro: "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoiéviski - 21/05/2011
"Livro e Liberdade", de Luciano Cânfora - 18/06/2011, por indicação de Leonardo Rosa
"Correspondência Goethe / Schiller" - 16/07/2011
"Os sofrimentos do jovem Werther", de Goethe - 20/08/2011
"O Gitanjali", de Rabindranath Tagore - 24/09/2011, por indicação de Ailton Augusto
"Bartebly", de Herman Melville - 22/10/2011, por indicação de Fabrício Tavares
"O alienista", de Machado de Assis - 19/11/2011, por indicação de Ailton Augusto
"Meditações", de Marco Aurélio - 17/12/2011, por indicação de Paulo Tostes
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
"Meditações", de Marco Aurélio
Nessa perspectiva, se o curso do mundo obedece a um determinismo contra o qual é inútil lutar, o autor afirma taxativamente: “Para cima e para baixo, de um lado para o outro, de roda em roda, é este o monótono e enfadonho ritmo do universo. Tudo o que acontece foi preparado desde toda a eternidade; a sucessão de causas esteve sempre fiando a tua existência e o que te acontece" (Livro X, 5). E, mais adiante: “E nada pode transgredir a necessidade do destino e de uma ordem, nem a providência que ouve a súplica, nem um desgovernado caos sem finalidade. Se a Necessidade nada pode transgredir, por que resistes?”
Será que na ordem dos acontecimentos, é assim que todo o universo se manifesta? Eis, portanto, uma oportuna leitura a ser refletida...
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quarta-feira, 9 de novembro de 2011
"O alienista", de Machado de Assis
A obra deste mês é uma das mais prestigiosas criações de Machado de Assis: a novela O alienista. Publicada no volume Papéis Avulsos (1882), ela ganhou "vida própria", vindo a ser editada em volume separado por várias editoras, como o demonstra a capa ao lado, da Ática.
A novela conta a história do doutor Simão Bacamarte, um renomado alienista que vem de Portugal e instala-se em Itaguaí, no interior fluminense, para dedicar-se à investigação das causas da loucura.
Com o objetivo de reunir em um só local os "deserdados do espírito", o doutor Bacamarte manda construir uma "casa de Orates" para acolhê-los: a Casa Verde. Ao longo da história, veremos o crescimento e a diminuição do número de habitantes da instituição, cuja variação "demográfica" decorria em grande parte das mudanças que o alienista fazia em suas teorizações sobre a loucura, cujos limites ele não conseguiu delimitar com o rigor que seu cientificismo pretendia. Aliás esse rigor científico que caracterizou a segunda metade do século XIX é o grande alvo da crítica machadiana nessa novela, que retrata com perfeição as limitações de uma visão e/ou prática extremadas de qualquer doutrina.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
"Bartleby", de Herman Melville
O conto "Bartebly, o escrivão", escolhido como obra do mês de outubro, foi publicado por Herman Melville na coletânea de contos "The Piazza Tales" (1856, capa ao lado), embora já houvesse aparecido em periódicos três anos antes.
Considerado por alguns críticos como um dos melhores contos da literatura universal, "Bartebly,..." é narrado por um advogado de Wall Street que contrata um jovem escrivão soturno e asseado, o personagem que dá título à obra, para trabalhar como copista de documentos. Após se recusar a conferir um documento, o jovem escrivão começa também a recusar a cumprir uma série de tarefas impostas pelo chefe e até mesmo a deixar o escritório. "I would prefer not" ("Acho melhor não" ou, mais comumente nas traduções, "Prefiro não o fazer") é tudo o que Bartleby tem a dizer, causando assim sérias pertubações na vida de seu chefe, o advogado narrador.
Grande parte dos críticos percebem nesse conto uma antecipação da temática do "pesadelo da racionalidade" que será exaustivamente trabalhada por Kafka no século XX e também uma antecipação da filosofia existencialista. Outros veem na narrativa a alienação moderna do indivíduo ocasionada pelo trabalho especializado.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Gitanjali - Oferenda Lírica
A obra escolhida para leitura neste mês de setembro foi "Gitanjali" (pronuncia-se guitânjali), do indiano Rabindranath Tagore. Trata-se de uma coleção de 103 poemas que o próprio autor traduziu do bengali - idioma no qual foram inicialmente concebidos - para o inglês, publicada em 1912, com prefácio elogioso de W. B. Yeats. Na época, a recepção do opúsculo foi tão positiva que rendeu o Nobel de Literatura a Tagore em 1913, mesmo ano em que saía a tradução alemã da obra. A seguir foi vertida para o sueco, o francês (em tradução de André Gide), o espanhol e o turco.
No Brasil, destaca-se a tradução feita pelo poeta Guilherme de Almeida para a coleção Rubáiyát, da Livraria José Olympio (foto ao lado), hoje fora de mercado e disponível somente em sebos. Também existem traduções publicadas pelas editoras Coordenada de Brasília, Martin Claret e Paulus, esta última feita por Ivo Storniolo.
Até onde pude verificar [1], os poemas reunidos para a versão inglesa de Gitanjali não mantém correspondência com a obra homônima, escrita em bengali e que foi publicada em 1910. Na verdade, apenas 53 poemas foram retirados dessa versão original. Os demais foram selecionados de outras obras do autor, a saber: Gitamalaya (16 poemas), Naivedaya (16 poemas), Kheya (11 poemas), Shishu (3 poemas), Chaitali (1 poema), Kalpana (1 poema), Achalayalan (1 poema) e, por fim, Utsarga (também 1 poema).
Os poemas de "Gitanjali" abordam a relação com o divino, sendo enquadrados pela crítica como poesia de cunho místico ou espiritual. Durante a leitura da obra, percebemos que a visão da divindade defendida pelo autor é distinta daquela que nos chega através do senso comum. Tagore propõe que cada ser humano busque encontrar-se com Deus de forma íntima e pessoal, em todos os espaços e momentos. Em muitos poemas essa busca é comparada ao cortejo do amante e a imagem do discurso amoroso é uma metáfora realmente válida, pois fala de uma busca que nem sempre se concretiza, mas que tem seu sentido e objetivo em si mesma.
[1] http://www.hcicolombo.org/pdf/Tagore.pdf#page=123 (em inglês)
[1] http://www.hcicolombo.org/pdf/Tagore.pdf#page=123 (em inglês)
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sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Os sofrimentos do jovem Werther
No último encontro do grupo de leituras Palimpsestos, discutiu-se a obra Os sofrimentos do jovem Werther (1774), de Goethe. A obra é caracterizada por uma narrativa essencialmente subjetiva, conforme se evidencia no tom confidencial das cartas de um único personagem (Werther). Nessas cartas, a subjetividade do personagem é o móvel da narrativa, onde se destaca uma postura extremamente sentimental e individualista, frente a um amor impossível, cujo sofrimento culminanará no próprio fim de Werther.
Inspirado, em parte, na vida do próprio Goethe (seu amor por Charlotte Buff, esposa do amigo Johann Kestner) e também no desfecho trágico da história de Karl Willhem Jerusalém (que, diante da paixão pela mulher de um amigo, encontra na morte a superação do seu sofrimento), o romance apresenta a existência e a arte em uma íntima e profunda relação. Também compondo essa relação, a natureza funciona como cúmplice do eu enunciador, sendo a liberdade de criação um fator fundamental para o artista que quer despojar-se de todas as regras e convenções sociais. Mas, dada a impossibilidade de viver, na realidade, o que o eu deseja e imagina, a escrita do Romantismo aponta, por isso mesmo, a inadaptação à existência e a fragilidade do racionalismo iluminista, o que leva o ser romântico a buscar outras possíveis soluções para enfrentar o mundo. Nesse sentido, estão, por exemplo, a idealização do amor, a partilha com as tradições de um povo e a busca de um passado como modelo. Enfim, é uma fuga como forma de se superar provisoriamente o conflito com a realidade exterior.
Com isso, a literatura do Romantismo inaugurada por Goethe, na Alemanha, traz para a vida o valor ético do palco, ou seja, “o coração, ele só, é o artífice de sua própria sorte”. É nesse “palco vivo” que o homem busca conhecer a extensão de sua força, tentando viver, para além do limite da realidade, toda a intensidade de sua alegria e dor.
Inspirado, em parte, na vida do próprio Goethe (seu amor por Charlotte Buff, esposa do amigo Johann Kestner) e também no desfecho trágico da história de Karl Willhem Jerusalém (que, diante da paixão pela mulher de um amigo, encontra na morte a superação do seu sofrimento), o romance apresenta a existência e a arte em uma íntima e profunda relação. Também compondo essa relação, a natureza funciona como cúmplice do eu enunciador, sendo a liberdade de criação um fator fundamental para o artista que quer despojar-se de todas as regras e convenções sociais. Mas, dada a impossibilidade de viver, na realidade, o que o eu deseja e imagina, a escrita do Romantismo aponta, por isso mesmo, a inadaptação à existência e a fragilidade do racionalismo iluminista, o que leva o ser romântico a buscar outras possíveis soluções para enfrentar o mundo. Nesse sentido, estão, por exemplo, a idealização do amor, a partilha com as tradições de um povo e a busca de um passado como modelo. Enfim, é uma fuga como forma de se superar provisoriamente o conflito com a realidade exterior.
Com isso, a literatura do Romantismo inaugurada por Goethe, na Alemanha, traz para a vida o valor ético do palco, ou seja, “o coração, ele só, é o artífice de sua própria sorte”. É nesse “palco vivo” que o homem busca conhecer a extensão de sua força, tentando viver, para além do limite da realidade, toda a intensidade de sua alegria e dor.
domingo, 31 de julho de 2011
A Influência de Lessing em Goethe


A influência de Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) na literatura alemã do século XVIII em diante é bastante grande. Sua obra, baseada nas diretrizes da Aufklärung alemã, forneceu um forte e decisivo impulso ao movimento Sturm und Drang, assim como marcou gerações posteriores, como a de Heinrich Wilhelm von Kleist (1777-1811), por exemplo. Especificamente em Goethe sua influência é notável. Um exemplo claro disso é o fato de que em uma cena final do romance de Goethe "Die Leiden des jungen Werthers"(Os sofrimentos do jovem Werther) de 1774, há uma referência direta à obra de Lessing "Emília Galotti", de 1772. De acordo com Karin Volobuef[1] o destino de Emília seria o mesmo que o de Werther na medida em que ambos têm suas expectativas pessoais frustradas e, diante da alternativa de ajustar-se às circunstâncias, optam pela libertação mais extrema.
Referência:
[1] Volobuef, K. (2010) Introdução. Em Lessing, G. E. (2010) "Emília Galloti". (Organização e tradução de Karin Volobuef. São Paulo:Hedra. (Obra originalmente publicada em 1772)
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sábado, 16 de julho de 2011
Goethe und Schiller. Geschichte einer Freundschaft
Goethe & Schiller: Geschichte einer Freundschaft
Rüdiger Safranski
Carl Hanser Verlag, Munich 2009
ISBN 978-3-446-23326-3
344 pages
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Blog "Goethe etc"
Na procura por informações acerca da relação entre Goethe e Schiller, encontrei o blog "Goethe etc", dedicado exclusivamente a Goethe. Apesar de a autora do blog se apresentar somente como "Goethe girl", é possível descobrir pela descrição de seu perfil que trata-se de Elizabeth Powers, uma americana que estudou na Universidade de Indiana e passou dois anos na Alemanha. Depois de uma temporada no Japão, ela retornou aos EUA, onde publicou dois livros e também uma dissertação sobre Goethe. Dirigiu o Seminário sobre Cultura Européia no século XVIII, da Universidade de Columbia e atualmente dedica-se a estudar o conceito de "literatura mundial" e o sublime pré-kantiano nas cartas de Goethe. Como resultado dos seminários da Universidade de Columbia, editou o livro "Freedom of Speech: The History of an Idea" (2011), pela Bucknell University Press.
O blog, que funciona desde 2008, traz uma série de notas interessantes a respeito de Goethe e sua obra. Vale uma visita!
sexta-feira, 1 de julho de 2011
"Correspondência Goethe / Schiller"
Saiu há pouco, pela Editora Hedra, uma tradução das correspondências trocadas entre Goethe e Schiller durante os anos de 1794 e 1803 e que ajudam a compreender o período chamado de "classicismo de Weimar" da literatura alemã. As 136 cartas recobrem o período em que obras fundamentais de ambos os autores foram escritas, como Fausto e Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, e Poesia ingênua e sentimental e Wallenstein, de Schiller.Além do registro do convívio de dois autores seminais para a literatura moderna, estão presentes debates sobre Aristóteles, os gêneros épico e dramático e as polêmicas e encontros circunstanciais que tiveram ao longo daqueles anos, que incluem escritores como Madame Stäel e Hölderlin.
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Tradutor: Claudia Cavalcanti
ISBN: 9788577151479
Ano: 2010
Edição: 1ª
Páginas: 248
Preço: R$ 24,00
(Postagem feita em 17/12/10)
(Postagem feita em 17/12/10)
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sexta-feira, 24 de junho de 2011
Sobre "Livro e Liberdade": anotações de um encontro

No último encontro do grupo de leitura Palimpsestos, a obra de Luciano Canfora propiciou uma favorável ocasião para a discussão da relação livro-pessoa. Já em seu primeiro capítulo, Liber, pode-se observar o papel ativo e transformador do livro nesta relação. A exemplo de Dom Quixote, o livro pode compelir seu leitor a observar o real a partir de seu filtro e a arriscar-se em fazer o que foi lido. Outra relação totalizante com o livro pode ocorrer ao leitor de um livro só, quando este faz de sua leitura uma autoridade imperativa. Contudo, da leitura dedicada a um único livro, o leitor também pode decodificar e conquistar de forma mais profunda seu conteúdo, tornando-se, por conseguinte, um expert e um “adversário assustador”, conforme acredita Canfora, ao nos remeter às palavras de S. Tomás de Aquino: “o homem que só conhece um livro, mas que o possui bem, é um adversário assustador”.
Outras passagens dignas de nota são as referências às bibliotecas, descritas como “paraíso” em que o leitor perde-se em meio ao êxtase provocado pela visão dos livros, mas também como “campo de batalha” entre livros antigos e modernos. Além disso, podem-se observar duas concepções distintas de biblioteca: uma antiga, constituída por poucos livros e por livros estritamente necessários, os quais revelam o seu leitor; e uma moderna, em que vigora a posse de bibliotecas particulares unicamente como símbolo de prestígio social. Seus donos são referidos por Sêneca como bibliômanos no intuito de ressaltar a coleção ostentatória de alguém que não lê.
Por fim, no amor devotado ao livro, o autor não permite esquecer que devemos ser seletos e, citando D’Alembert, adverte sobre a necessidade de haver certa distância do que se lê para que se possa julgá-lo; e de apropriar-se pessoalmente da leitura, sem, contudo, esquecer-se de compartilhá-la.
Outras passagens dignas de nota são as referências às bibliotecas, descritas como “paraíso” em que o leitor perde-se em meio ao êxtase provocado pela visão dos livros, mas também como “campo de batalha” entre livros antigos e modernos. Além disso, podem-se observar duas concepções distintas de biblioteca: uma antiga, constituída por poucos livros e por livros estritamente necessários, os quais revelam o seu leitor; e uma moderna, em que vigora a posse de bibliotecas particulares unicamente como símbolo de prestígio social. Seus donos são referidos por Sêneca como bibliômanos no intuito de ressaltar a coleção ostentatória de alguém que não lê.
Por fim, no amor devotado ao livro, o autor não permite esquecer que devemos ser seletos e, citando D’Alembert, adverte sobre a necessidade de haver certa distância do que se lê para que se possa julgá-lo; e de apropriar-se pessoalmente da leitura, sem, contudo, esquecer-se de compartilhá-la.
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quarta-feira, 1 de junho de 2011
"Livro e Liberdade" de Luciano Cânfora
Em Livro e Liberdade (2003, Casa da Palavra - Coleção Bibliomania, 112 págs, R$ 21,00) o filólogo italiano Luciano Cânfora (1942) elabora breve (mas substanciosa) digressão sobre a história das bibliotecas que do mundo antigo ao moderno, se constituíram em meio as tensas relações dos homens em suas variadas sociedades através dos tempos. Estas, tumultuadas pelos interesses, ideologias e propósitos que fizeram do livro, elemento que nenhuma obra ou síntese literária foi ainda capaz de satisfatoriamente traduzir. Se é que cabe alguma explicação além do impoderável e imprevisível que surge a partir deles sob a égide das bibliotecas e dos usos (e abusos) de seus usuários leitores, através das leituras, que nem sempre fizeram do livro, instrumento para liberdade (não a plena integralmente embora possível se apenas subjetiva e hermeneuticamente), embora no prólogo o autor afirme o contrário.
Sinopse:
"Antiga e múltipla é a ligação entre livro e liberdade - da biblioteca que enlouqueceu Dom Quixote aos bibliômanos de carne e osso; da destruição da Biblioteca de Alexandria às fogueiras de livros nazistas; da perseguição a autores pela Inquisição à formação das modernas bibliotecas. Na História e na literatura, exemplos do permanente poder do livro."
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quinta-feira, 19 de maio de 2011
Crime e Castigo

Dos livros de Dostoiévski, Crime e Castigo é o mais adaptado para o cinema; fato que pode ser atribuído à trama detetivesca dos diálogos entre o protagonista Raskolnikov e o juiz de instituição Porfiri Petróvitch. A primeira adaptação, dirigida por Josef von Sternberg e estrelado por Peter Lorre, ocorreu em 1953. A versão francesa ocorreu em 1956, sob a direção de Georges Lampin. Uma adaptação que dá maior ênfase a densidade psicológica do romance é filme finlandês de 1983, dirigido por Aki Kaurismäki. No Brasil, há uma adaptação livre dirigida por Heitor Dhalia e Marçal Aquino, Nina (2004), longa em que uma garota desajustada (representa Raskolnikov) vive em um quarto de aluguel, onde é explorada por uma rabugenta senhoria.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Dostoiévski & Graciliano Ramos

No encontro passado, dedicado a Crime e Castigo, não pude deixar de pensar em Graciliano Ramos e em seu romance Angústia, no qual também vemos um personagem atormentado após cometer um assassinato. Porém, Luis da Silva nunca se viu como um homem extraordinário que, por isso, poderia matar os que fossem por ele classificados como "ordinários". O personagem brasileiro se mostrou desde o início da narração (feita em 1ª pessoa) como um homem fraco, incapaz de afirmar-se na sociedade urbana que se constituía no país e o crime, para ele, é apenas uma forma de eliminar um homem que era seu contrário e o deixava desgostoso por conta disso.
Não vou, porém, me alongar na comparação das duas obras, pois não estou em condições de fazê-lo. Li muito mais Graciliano que Dostoiévski e apenas aponto uma possível intertextualidade. Seguramente, tanto o autor brasileiro quanto o russo merecem ser lidos.
Pesquisando um pouco na internet, descobri alguns trabalhos que tratam das aproximações entre Dostoiévski e Graciliano Ramos. Deixo os mesmos indicados abaixo, com os respectivos links:
A alma russa de um nordestino: Graciliano Ramos leitor de Dostoiévski. Dissertação de mestrado de Cristiane Guimarães Arteaga na qual, segundo o resumo, é traçado "um caminho de leitura em que os pontos de contato entre esses dois escritores pudessem ser percebidos sem, no entanto, privilegiar um ou outro." Disponível em: www.lume.ufrgs.br/handle/10183/5005
A 70 anos de Angústia, de Graciliano Ramos: visões da crítica. Artigo da professora Irenísia Torres de Oliveira, da Universidade Federal do Ceará, publicado na Revista de Letras em 2006, quando da efeméride de 70 de publicação do romance. O artigo trata de levantar a fortuna crítica do romance e aponta as duas principais correntes interpretativas: uma focada no aspecto psicológico da obra e outra no aspecto sociológico. Disponível em: www.revistadeletras.ufc.br/rl28Art23.pdf
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terça-feira, 3 de maio de 2011
Dostoiévski & Machado de Assis
Entre uma pesquisa e outra para contextualização e aprofundamento da análise da obra e autor do mês, buscava na internet algum trabalho que relacionasse Dostoiévski ao universo literário brasileiro, mas não em termos de influência, conceito que a Literatura Comparada tenta hoje superar. E eis que nas minhas buscas encontrei o trabalho de Andrea de Barros.
Sua dissertação de mestrado, defendida em 2007 junto ao Programa de Pós Graduação da PUC-SP, tenta relacionar o autor russo com Machado de Assis. Para ela, na obra de ambos, existe um modo de narrar que é trabalhado para construir a dúvida, notadamente nas obras O eterno marido, de Dostoiévski, e Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Sua dissertação de mestrado, defendida em 2007 junto ao Programa de Pós Graduação da PUC-SP, tenta relacionar o autor russo com Machado de Assis. Para ela, na obra de ambos, existe um modo de narrar que é trabalhado para construir a dúvida, notadamente nas obras O eterno marido, de Dostoiévski, e Dom Casmurro, de Machado de Assis.
A quem tiver interesse, a dissertação pode ser encontrada no link:
http://www.sapientia.pucsp.br//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=4447
http://www.sapientia.pucsp.br//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=4447
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