domingo, 13 de dezembro de 2009

Promoção de Livros

"O site Estante Virtual (portal que reúne 1,6 mil sebos brasileiros e quase 6 milhões de livros catalogados) criou uma promoção de Natal. Vai premiar com um vale-compras de R$ 500 os autores das seis melhores respostas à pergunta: "O que é o mundo dos sebos para você?". Para participar, basta fazer uma compra acima de R$ 30 até o dia 31."

Fonte: O Globo - Prosa & Verso - pág. 3 em 12 de dezembro de 2009.

Acesse: www.estantevirtual.com.br

Museu de Malacologia Professor Maury Pinto de Oliveira da UFJF

No início da década de 1950, o inquieto médico da Marinha do Brasil Maury Pinto de Oliveira, deu início a uma pequena coleção de conchas, a partir de coletas nas praias das cidades do Rio de Janeiro e Niterói. Enriqueceu seu conhecimento na área de Zoologia e, mais especificamente, de Malacologia através de contatos com especialistas no Brasil e no exterior e uma aquisição frenética de bibliografia especializada.
Em 1966, a coleção que então contava com 8.000 conchas de todas as partes do mundo, foi doada à Universidade Federal de Juiz de Fora, com a condição de que a mesma permanecesse sob administração do doador enquanto este desejasse ou tivesse forças para tal. Mesmo apertada em um laboratório no antigo Departamento de Biologia, o acervo se multiplicou através de coletas, permutas e doações, até que o espaço passou a ser insuficiente para a sua grandiosidade.
Após tentativas de alocações em outros espaços, a Universidade, reconhecendo a importância da coleção, construiu em 1996, um prédio no Instituto de Ciências Biológicas, que abriga ainda hoje, a Malacologia e o Herbário.
Em 2002 foi criado o Núcleo de Maloacologia da UFJF, com estrutura própria, tendo como Curador vitalício o Prof. Maury Pinto de Oliveira. Depois de sua morte, em junho de 2004, o setor, com todas as suas dependências, passou a se chamar Museu de Malacologia Prof. Maury Pinto de Oliveira, em reconhecimento a sua obra e dedicação ao estudo da malacologia.
Acesse:

sábado, 12 de dezembro de 2009

Carta a Boris Vian

Quando me foi proposto escrever esta missiva a um autor que fosse da minha predilecção, pensei quase de imediato em Bóris Vian, destinatário de pleno direito destas minhas palavras. No lugar do Trompetista de Jazz, do Engenheiro Mecânico, falo ao Escritor, aquele que desdobra a realidade na sua forma mais comum e visível.
Sempre mantive um grande carinho, devo confessar-lhe, pelos livros que me foram e são dados a ler e que leio no seguimento de algo que me seduz. È, portanto neste contexto, que me debruço pela primeira vez sobre o seu livro a “ Espuma dos Dias”. Ao primeiro contacto não pude deixar de ser tocada pelo ténue sabor a fel que empalidecia algumas das suas páginas mas rápido me entreguei a este fel e a esta leitura como quem vê abrir-se e aproximar-se uma pequena janelinha no seu, já enfadado, espaço. Objectos, como são exemplo o piano-coktail cuja constituição obedece a um sistema que consiste na atribuição de uma determinada bebida consoante um determinado som, a casa habitada por um casal enamorado e os seus movimentos em nada aleatórios, a presença de animais com a capacidade do discurso á semelhança de uma fábula, são parte de um enredo em si tentador.
Julgo que (e sem querer estar a cair em erro) disse acerca desta sua história e obra que tudo o que dela consta existe de facto, pois existiu para si. Assim, enquanto leitora pois, em nenhum momento me foi permitido tomar partido algum, devido ao teor das emoções expressas no desenrolar desta história, creio que a minha Alma ficou ainda mais cativada. Tal foi a forma em que tudo, também para mim, fazia um terrível sentido.
Apesar, de já haver dito anteriormente, que na única qualidade de leitora não pude (por assim dizer) tomar o partido de determinado ponto de vista desta ou aquela personagem gostaria de realçar tal facto, como principal característica de todas as suas obras assinadas em nome de Bóris Vian e não em nome de Vernon Sullivan. Pois, que no que diz respeito ao último pseudónimo, está presente um grande realismo, na medida em que procura representar toda a podridão existente na dita realidade.
Com isto, quero dizer, que alguém ao se entregar e seguir as suas palavras poderá ( estranha ou naturalmente ) vivenciar diversas emoções vacilantes e duvidosas. Agora, no momento em que lhe escrevo, recordo-me da primeira vez que me vi observadora de a “ Feira dos Velhos” (excerto de “O Arranca Corações”). Assim, após lidas as primeiras linhas , confessei a um amigo próximo a minha tola incapacidade de avançar na leitura e abandonar de uma forma total a dita observação. Julgo eu, que tal coisa não o surpreenderá a si mas a verdade dessa letargia reside exactamente nessa dubiedade emocional que me tomou de um trago, não me deixando indiferente.
Que faria eu, ( aproveito para o questionar ) perante homens aparvalhados cujos corpos eram frios objectos nas mãos da crueldade de crianças, apenas um puro reflexo da tamanha insanidade dos adultos… Rir-me-ia ? Debater-me-ia? Sem, qualquer pudor, antecipo a resposta (visto o tempo que me distancia de tais páginas); Rir-me-ia.
Sim, Rir-me-ia. Rir-me-ia mas sempre na qualidade de uma mera observadora que caminhava distraída por aquelas bandas. Sem tomar (ou pedir) partido algum. Tal qual uma observadora do ridículo, do ridículo dos Homens. O que são, o que foram, o que desejam ser e não são, o que gostariam de ser. Enfim, ri-me de mim…de nós.
Confesso-lhe, não ter desdenhado o outro lado da moeda. Ceder ás lágrimas tomou, também, de assalto o meu pensamento, contudo sorrir pareceu-me ser de maior sensatez e certa cautela.
Não sei se para si, que carrega nos próprios punhos tamanhas agitações, existe esta ambiguidade neste termos ou se até mesmo, poderá ser tomado como um objectivo.
Porém, estes são os reflexos de todo o sarcasmo contido nas palavras lidas e tidas.



Com cumprimentos,
Guadalupe Vieira.


Post- Scriptum: Perdoe-me qualquer sentimentalismo o que fazer, quando a própria França mo inspira?

Meu encontro inesperado com Yukio Mishima


Um título escolhido ao acaso numa prateleira me forneceu o destinatário da carta que precisava escrever para a dinâmica do grupo no mês de dezembro/2009. O resultado está abaixo, espero que gostem:

Juiz de Fora, 08 de dezembro de 2009
Sr. Mishima.

Estava eu às voltas com escrever uma carta a um autor de minha preferência para uma dinâmica de grupo. Podia ser qualquer autor. Veja bem, qualquer autor e não um autor qualquer. E com certeza o senhor é um grande autor!

Pensei em várias possibilidades, pensei até em usar a máscara de algum personagem e, por trás dela, escrever para um autor. Mas, com as correrias do final de ano, acabei não investindo seriamente na escrita dessa carta. Pode ser que a essa altura o senhor esteja se perguntando: “e o que eu tenho a ver com isso tudo?”.

Até uns dias atrás, posso assegurar, o senhor não tinha absolutamente nada que ver com a história... Confesso que ignorava a existência de suas obras. Quer dizer, não propriamente ignorava. Já tinha começado a ler Neve de Primavera, primeiro volume de uma tetralogia. Comecei a ler e não terminei. Não; não pense que o livro era ruim. Eu é que fui um mau leitor. Além disso, a grande extensão da obra, e a consciência de que eu não teria acesso aos quatro volumes ao mesmo tempo me desanimou para a tarefa. Hoje vejo como eu fui tolo por furtar-me à leitura de um autor capaz de dizer coisas assim:

“De repente, o longo gemido da sirene de um navio entrou pela janela aberta e inundou o quarto em penumbra – o grito de uma dor sem limites, sombria, exigente; escuro como breu e glabro como o dorso de uma baleia, sobrecarregado de todas as paixões das marés, da memória de viagens fora de conta, de alegrias e humilhações: o mar estava gritando. Impregnada do brilho e da loucura da noite, a sirene trovejava, transmitindo ao pequeno quarto desde o mar largo e distante, desde o centro morto do mar, uma sede do néctar escuro.”

Mas, como ia dizendo, até então eu não havia pensado em eleger o senhor como destinatário dessa minha carta. E isso até o dia em que topei com O marinheiro que perdeu as graças do mar, de onde retirei a citação acima, na prateleira da biblioteca. Foi a primeira vez em muitos meses que consegui ler um livro inteiro em apenas dois dias. Foi uma leitura rápida, envolvente, emocionante. Sem dúvida essa minha total absorção pela obra foi devida à beleza de seu estilo. À sutileza e singeleza de suas imagens e descrições. Fiquei profundamente encantado com a maneira sábia e sóbria como o senhor conduz os personagens do pré-clímax ao clímax, e vice-versa, dando à narrativa uma movimentação que jamais culmina numa cena afirmativa. Parece que o livro foi escrito sob o signo da negação e os poucos personagens se esbatem nas redes dos desenganos e ilusões humanos.

E, no entanto, como é forte, como é densa essa narrativa. E como no final estamos predispostos a aceitar tranquilamente que a glória é mesmo amarga, que Tsukazaki é mesmo um “traidor”. Ou será que ele é um traído? Traído pelo próprio desejo de glória que sempre lhe norteou a vida?

Contrariando, porém, essa meia-luz que domina a obra, a vida do senhor foi de uma intensidade invejável e de uma coerência e coragem poucas vezes vista. Afinal, poucos têm, hoje em dia, um caráter suficientemente forte e resoluto para se submeter ao seppuku. Acho que além de amarga, a glória pode acabar sendo dolorosamente atroz. E no fim das contas sempre perdemos as graças, sejam elas do mar, do céu, da divindade, dos nossos semelhantes e até de nós mesmos.

Considerações sobre a carta endereçada à “menininha”

Juiz de Fora, 11 de dezembro de 2009.

Estimado Saint-Exupéry,

sei que não é gentil de minha parte incomodá-lo com perguntas e declarações a respeito de uma carta endereçada a uma desconhecida. Mas suas palavras conduziram-me a um estado interior que lhe é familiar: ele também não é o da primavera. Refiro-me especialmente à sua declaração de que não há e nunca haverá Pequeno Príncipe. Como pode o Pequeno Príncipe está morto? Ou, o que é o mesmo, “torna-se muito cético”? Acaso esqueceu-se de seu último aviso: “Eu parecerei estar morto e isso não será verdade...” A questão é que a viagem de volta para sua casa era longa e o seu corpo, muito pesado. Da mesma forma, seria um equívoco afirmar que a roseira perdeu sua importância para o Pequeno Príncipe desde que ele se feriu nela. Ora, acreditar nisto é negar que ele não compreendeu o significado da palavra cativar, o que não é verdade. Nós, homens, facilmente nos esquecemos de que somos “eternamente responsáveis” pelo que cativamos; este pode ser o caso da sua “menininha invisível”, que nem sequer lhe retornou o telefonema, mas não se esqueça de que de devemos ser tolerantes com as pessoas grandes. Até entendo a tristeza e a amargura do Pequeno Príncipe nesta carta. Ele aterrissou — talvez não pela primeira vez — em um planeta efêmero, onde os habitantes, na vã tentativa de ganhar mais tempo, perdem o tempo que deveria ser dedicado ao conhecimento do Outro. Um planeta em que impera a solitude. Contudo, não podemos esquecer que haverá outras viagens e outros planetas — o Pequeno Príncipe é um sujeito curioso. Há sempre a possibilidade de se deparar com Outros que conseguem ver o carneiro dentro da caixa ou o elefante dentro da jiboia. Há sempre aqueles que guardam em si um pouco da criança que já foram.

Sua leitora,
eternamente pequena.